quarta-feira, 28 de outubro de 2009

O MILKSHAKE ENTORNADO

Madrugada. Chovia forte. Rafael acorda com o ruído dos pingos grossos no ar condicionado do quarto de hotel em São Paulo, tirando-lhe do devaneio de um pesadelo horrível. Suava em bicas. Do sonho ruim, a lembrança de uma cena em que sua mulher o flagrava com uma ninfetinha. Demorou um pouco até ter certeza de que se tratava de um pesadelo mesmo. Só conseguiu relaxar quando ouviu a doce voz da garota que ele, inacreditavelmente, conseguiu levar para a cama há cerca de seis meses. Agora estava viciado no sexo dela. Não conseguia mais se desvencilhar. Era a Carol, a sua estagiária:

- Rafa, o que foi, querido?
- Nada, não. Acho que tive um pesadelo.
- Quer contar?
- Não, não... foi só que... no meu sonho a Marcela pegava a gente aqui no Hotel e te esculachava.
- Fica calmo, amor, a tua mulher tá no Rio, ela nunca vai saber que você me trouxe pro Congresso aqui em Sampa.
- Eu vou dar um jeito nisso o quanto antes, você sabe, né, princesa?
- Claro, Rafa! Confio em você, sei que vai se separar da Marcela, afinal, a gente se ama. Vamos voltar a dormir, o dia amanhã será longo...
- Tá. Boa noite...

Rafael, todavia, não conseguia mais descansar. Um sentimento estranho tinha lhe invadido a alma e agora estava perturbado demais para desligar-se do pesadelo. Assim que amanheceu, enquanto Carol entrava no banho, ele ligava para Marcela:

- Alô, Cleide! Chama a Marcela, por favor?
- Não está, Seu Rafael.
- Ué... mas pra onde ela foi assim tão cedo?
- Não sei não sinhô.
- Vou ligar pro celular dela, então.
- Pois não, sinhô.

Depois de duas tentativas sem sucesso, volta a ligar pra casa.

- Ô Cleide, não é possível que a Marcela não tenha dito nada a você. Onde é que ela se meteu?
- Ai, meu Sinhô do Bonfim...
- Olha aqui, você vai me dizer agora o que você sabe, estou começando a ficar realmente preocupado!
- Ô seu Rafael, num posso falar nada não, viu? É surpresa!
- Surpresa??? Que surpresa, pelo amor de Deus, Cleide? Fala logo!
- Ó, se é surpresa, é porque num posso contar, né?
- Cleide, quem é que paga o seu salário?
- O sinhô.
- Você quer que eu lhe bote na rua?
- Não quero não sinhô...
- Pois então vá abrindo o bico...
- A Dona Marcela foi pra São Paulo pra fazer uma surpresa pro sinhô, mas...

tum-tum-tum-tum... Rafael desliga o telefone e dá um salto da cama ao mesmo tempo em que Carol desliga o chuveiro. Bate desesperado na porta do banheiro:

- Que foi, amor? Dá pra esperar um pouco?
- Não, não dá! A Marcela está vindo pra São Paulo, então infelizmente vou ter que te embarcar num ônibus de volta pro Rio!
- Êpa! – diz Carol, abrindo a porta do banheiro e mudando o tom - Você me buscou em casa e me trouxe até aqui, e agora quer me despachar num... ônibus?
- Mas minha princesa, não podemos estragar tudo agora...
- Olha só, se vira. Não pedi pra vir, fui convidada por você e não vou admitir ser despachada feito mercadoria estragada. Pelo menos me leva no aeroporto e me põe num avião.

Rafael pensa um pouco e decide que é melhor voltar para o Rio junto com Carol, de carro mesmo. Arrumam tudo rapidinho e, sem café da manhã, metem o pé na estrada.

A certa altura, na Dutra, Carol pede um ovomaltine do Bobs. Era do outro lado da estrada... Rafael faz o retorno e entra no Bobs com a ninfetinha para comprar o tal do shake. Quando estão voltando pro carro, um Audi estaciona ao lado do carro de Rafael, de onde desce um casal de colegas de profissão:

- Rapaz, que coincidência, mas que é que cê tá fazendo aqui!

Iiiiihh... Sabe aquele tipo de sujeito inconveniente? O pior é que a Marcela era amiga da mulher dele...

Pois é, estou voltando do Congresso, já fiz meu networking por lá e, sabe como é, né, a Marcela faz a maior falta... ah! Essa aqui é a... uma futura colega nossa, me pediu uma carona, tá passando meio mal, coitada.

Carol olha atravessado, com cara de poucos amigos, mas aguenta calada. O papo prossegue:

- Mas me conta, e vocês? Estão indo pro Congresso?

- Sim, estamos... inclusive demos carona para uma pessoa que queria te fazer uma surpresa...

Antes que pudesse cair completamente a ficha, Rafael sentiu o sangue se esvair de seu rosto, enquanto registrava a imagem de Marcela, em câmera lenta, descendo do carrão blindado e lentamente caminhando na sua direção...

Frações de segundo com um milhão de coisas correndo no pensamento ao mesmo tempo até Rafael escutar:

- Amooor? Que surpresa! Eu estava indo pra São Paulo, e acabou que você me surpreendeu antes...

Rafael não conseguia pensar em nada, só sentia o sangue congelando nas veias...

- Quem é essa moça, amor?

De um impulso, Rafael dispara:

- Essa é a... uma funcionária lá do escritório, eu estava com tanta saudade de você, amor, que resolvi voltar pra casa mais cedo, daí a Carol, que também estava no congresso, me pediu carona porque estava passando mal e...

A estagiária explode:

- PARA COM ESSA MERDA, RAFAEL! CHEGA DESSA MENTIRA RIDÍCULA! Olha aqui, minha filha, eu sou a namorada dele, meu nome é Carolina. Eu vim com ele e é com ele que eu vou voltar.

Tapa no milkshake do Bobs que voa alto dando aquele banho cremoso em Rafael, respingando em sua ninfetinha. As duas se atracam, Marcela belisca forte, na cara, a amante do seu marido que, por sua vez, revida puxando os cabelos da fina esposa de Rafael, só os soltando quando Marcela dá-lhe um tostão na coxa. Marcela, então, parte com fúria para cima da “aprendiz de piranha”, tentando enfiar-lhe um dedo no olho, mas Carol consegue desviar, dando um soco no nariz de Marcela, fazendo-a ir ao chão. Quando Carol parte para cima de Marcela novamente, leva uma cusparada na cara e, só então, o casal amigo, atônito, se junta a Rafael para ajudá-lo a encerrar a briga entre as duas mulheres.

Cena de novela. O povo, chegado que é em ver a miséria alheia, assiste a tudo curiosamente, comentando a baixaria. Algumas pessoas entre risinhos contidos, outras criticando severamente, mas dali ninguém sai enquanto não cessa o pega-pa-capá.

Desfeito o emaranhado humano, Carol parte pra dentro do carro de Rafael, decretando que de lá não vai sair de jeito nenhum. Com muito esforço, Rafael convence a moça de, pelo menos, ir no banco de trás, para que sua esposa possa ocupar o lugar que ainda lhe pertence. Vão os três absolutamente mudos até o Rio de Janeiro.

O resultado do imbróglio: Marcela pediu o divórcio e Rafael casou com a ninfetinha, que hoje já nem é tão cocota assim. Conta-se que Carol tem dado uma surra por mês nas “oferecidas” que se aproximam de Rafael, que continua, como era absolutamente previsível, um eterno conquistador. Sua mais recente “presa” é a nova estagiária do escritório. Uma morena de olhos verdes. 19 aninhos. Carol nem pode imaginar o que está rolando entre os dois. Dizem que até em casa de suingue eles já foram. E consta que Rafael está doidinho pela gata.

Marcela hoje mora em Paris. Tem um filho, de produção independente, e é empresária pioneira no ramo da moda que escolheu. Tem consciência de que se livrou de um cafajeste incorrigível... E isso lhe basta.

Alessandra Gondim Pinho – 26 de outubro de 2009.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Uma vida mais "gramurosa"

Por uma vida mais gramurosa

O celular me desperta. Acordei decidida. Agora chega, vou mudar minha vida. Que Enfermagem o quê! Acordar 5 hora da manhã, pegar uma porcaria duma van cheia de gente mal humorada! Que nada! Negócio de cuidar de gente doente, bando de morto-vivo, a maioria nunca nem tá doente de verdade! Olha só fila de hospital público como é que é... Não acaba nunca! Pode ver: pobre adooooora dizer que tá doente e depois reclamar que foi mal atendido no “PS”. Ah, não! Quero isso pra mim, não! O que o Estado paga pro Auxiliar de Enfermagem não dá nem pra pagar minhas conta, pô... Eu quero é ser artista, trabalhar na TV.

Taí, tá decidido! Vou ser atriz da novela das 8. Dar autógrafo, beijar homens lindos... Vou viajar pra tudo quanto é lugar bacana. Fazer novela “nas Índias”, em Paris, em Creta... Parece que eu ouvi que tem um lugar que chama Creta... Todo mundo vai saber quem sou eu. O pessoal da comunidade não vai acreditar, cara! O Creysson, então... ha! Vai se arrepender de ter me deixado...

Agora, imagina só a Lurdismilla , quando ela souber... Vai morrer de inveja, aquela baranga cafona. Pensa que é melhor do que os outro! Ela e aquela cambada da Rua 7. Acham que moram bem, só porque fizeram uns puxadinho lá em cima e lascam churrasco na laje todo fim de semana. Boa bosta. Churrasquinho de frango e linguiça. Nunca tem picanha....

A Lurdismilla sempre quis ter essa buzanfa poderosa que eu tenho. Nem pode usar shortinho, coitada, com aqueles cambito... E ela diz que eu sou gorda, só porque tenho um pouquinho de celulite. Ha! Só dá eu no baile funk, minha filha. EUZINHA aqui ó, sou RAINHA lá. Mas deixa esse negócio de funk pra lá, porque funk é coisa de pobre. Tá ligado que rico dança “batistaca”, né, essas parada aê de “rause”, “dramembesse”... Rico não vai pro baile, não, minha filha... Rico vai pra “ba-la-da”. Acho que com artista é assim também, né! Que eu saiba todo artista é rico!

Só sei que eu não nasci pra ser mais uma neguinha no morro, não... É ruim, hein? Eu quero mais é fazer sucesso, arrasar na fita. Meus minino vão ter o maior orgulho quando eu aparecer na CARAS exibindo o corpão naquela piscina linda, em cima do mar. Vai ter uma foto minha bem grandona, com abre aspas. ABRE ASPAS, minha filha, vai me dizer que tu não sabe o que é abre aspas? No meio da reportagem aparece umas palavra que saíram certinho da minha boca.

Triiiiim... triiiimmmm... iiihh... é minha mãe, me ligano pra mandar eu cuidar dos menino esse fim de semana, quer valer? São meus filho, né! Arrumar um pai pra 4 menino não tá mole, não! Meu mais velho, o Jonata Richardsson só quer saber de namorar, qualquer hora dessa me aparece aí com mais uma boca pra gente ter que dar de comer. Os gêmeos, Dión Uésley e Uélito Jeffrey também não querem conta com os estudo. Eu bem que queria que eles fossem médico quando crescessem... Os dois são branquiiinho... mas é o dia inteiro na pipa. Fazer o que? Pelo menos o pessoal diz que meu caçula, o Ruy Deividsson, vai ser jogador de futebol, daquele tipo bonzão mermo, sabe? Que vai jogar “nas Europa” e as porra. Aí acaba a miséria.

Hmmm... cheiro de queimad... CARACA! Queimei o pão!!! Puta que pariu! Vou perder a van de novo! Aquela bruxa da minha chefe vai me torrar os pentelho... Gente, eu não posso perder esse emprego agora... Ai meu pai, cadê a chave de casa...

É, já vi que vou ter que botar a Lurdismilla pra me substituir no palco no sábado... mas é só dessa vez, não pense ela que vai tomar meu lugar... é ruim, hein! Ah, também, que se dane! Amanhã mesmo vou atrás do meu sonho, começo minha carreira nova, aí tu vai ver. Enquanto isso, sou EU, Rosianny Kelleyn, a única Rainha do Baile Funk da Favela do Buracão! Né pouca merda não, minha filha!

Agora, pro meu nome artístico, tô pensando em tirar o Rosianny... mas precisa de mais uns dois nome aí pra combinar com Kelleyn... alguma coisa BEM gramurosa pra não dar erro... tipo... Kelleyn Christinny Bíndish ... ‘cê acha bom?

É... amanhã eu vejo isso. De amanhã não passa.