Todo ano é a mesma coisa. A partir de agora vou beber menos, comer bem, fazer atividades físicas, ficar gostosona até o fim do ano... Vou fazer meditação, cuidar do espírito, dar mais de mim ao próximo. Vou estudar para trabalhar só com o que gosto. Vou rever meus amigos de infância (e estreitar relações com eles e suas novas famílias). Vou saltar de asa delta e comprar uma bicicleta (casada eu já sou).
Já pensou quantas resoluções de fim de ano a gente toma e deixa de lado conforme o ano vai chegando ao fim? E tudo para no mês de dezembro a gente dizer: "no ano novo agora vai ser tudo diferente".
O que seria do ser humano não fosse essa "contagem" incrível que inventaram para nos renovar a esperança, de tempos em tempos.
Não sei vocês, mas estou cheinha de planos para este ano de 2010...
FELIZ ANO NOVO A TODOS!!! Eu tardo, mas não falho!!! hehehe
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
O MILKSHAKE ENTORNADO
Madrugada. Chovia forte. Rafael acorda com o ruído dos pingos grossos no ar condicionado do quarto de hotel em São Paulo, tirando-lhe do devaneio de um pesadelo horrível. Suava em bicas. Do sonho ruim, a lembrança de uma cena em que sua mulher o flagrava com uma ninfetinha. Demorou um pouco até ter certeza de que se tratava de um pesadelo mesmo. Só conseguiu relaxar quando ouviu a doce voz da garota que ele, inacreditavelmente, conseguiu levar para a cama há cerca de seis meses. Agora estava viciado no sexo dela. Não conseguia mais se desvencilhar. Era a Carol, a sua estagiária:
- Rafa, o que foi, querido?
- Nada, não. Acho que tive um pesadelo.
- Quer contar?
- Não, não... foi só que... no meu sonho a Marcela pegava a gente aqui no Hotel e te esculachava.
- Fica calmo, amor, a tua mulher tá no Rio, ela nunca vai saber que você me trouxe pro Congresso aqui em Sampa.
- Eu vou dar um jeito nisso o quanto antes, você sabe, né, princesa?
- Claro, Rafa! Confio em você, sei que vai se separar da Marcela, afinal, a gente se ama. Vamos voltar a dormir, o dia amanhã será longo...
- Tá. Boa noite...
Rafael, todavia, não conseguia mais descansar. Um sentimento estranho tinha lhe invadido a alma e agora estava perturbado demais para desligar-se do pesadelo. Assim que amanheceu, enquanto Carol entrava no banho, ele ligava para Marcela:
- Alô, Cleide! Chama a Marcela, por favor?
- Não está, Seu Rafael.
- Ué... mas pra onde ela foi assim tão cedo?
- Não sei não sinhô.
- Vou ligar pro celular dela, então.
- Pois não, sinhô.
Depois de duas tentativas sem sucesso, volta a ligar pra casa.
- Ô Cleide, não é possível que a Marcela não tenha dito nada a você. Onde é que ela se meteu?
- Ai, meu Sinhô do Bonfim...
- Olha aqui, você vai me dizer agora o que você sabe, estou começando a ficar realmente preocupado!
- Ô seu Rafael, num posso falar nada não, viu? É surpresa!
- Surpresa??? Que surpresa, pelo amor de Deus, Cleide? Fala logo!
- Ó, se é surpresa, é porque num posso contar, né?
- Cleide, quem é que paga o seu salário?
- O sinhô.
- Você quer que eu lhe bote na rua?
- Não quero não sinhô...
- Pois então vá abrindo o bico...
- A Dona Marcela foi pra São Paulo pra fazer uma surpresa pro sinhô, mas...
tum-tum-tum-tum... Rafael desliga o telefone e dá um salto da cama ao mesmo tempo em que Carol desliga o chuveiro. Bate desesperado na porta do banheiro:
- Que foi, amor? Dá pra esperar um pouco?
- Não, não dá! A Marcela está vindo pra São Paulo, então infelizmente vou ter que te embarcar num ônibus de volta pro Rio!
- Êpa! – diz Carol, abrindo a porta do banheiro e mudando o tom - Você me buscou em casa e me trouxe até aqui, e agora quer me despachar num... ônibus?
- Mas minha princesa, não podemos estragar tudo agora...
- Olha só, se vira. Não pedi pra vir, fui convidada por você e não vou admitir ser despachada feito mercadoria estragada. Pelo menos me leva no aeroporto e me põe num avião.
Rafael pensa um pouco e decide que é melhor voltar para o Rio junto com Carol, de carro mesmo. Arrumam tudo rapidinho e, sem café da manhã, metem o pé na estrada.
A certa altura, na Dutra, Carol pede um ovomaltine do Bobs. Era do outro lado da estrada... Rafael faz o retorno e entra no Bobs com a ninfetinha para comprar o tal do shake. Quando estão voltando pro carro, um Audi estaciona ao lado do carro de Rafael, de onde desce um casal de colegas de profissão:
- Rapaz, que coincidência, mas que é que cê tá fazendo aqui!
Iiiiihh... Sabe aquele tipo de sujeito inconveniente? O pior é que a Marcela era amiga da mulher dele...
Pois é, estou voltando do Congresso, já fiz meu networking por lá e, sabe como é, né, a Marcela faz a maior falta... ah! Essa aqui é a... uma futura colega nossa, me pediu uma carona, tá passando meio mal, coitada.
Carol olha atravessado, com cara de poucos amigos, mas aguenta calada. O papo prossegue:
- Mas me conta, e vocês? Estão indo pro Congresso?
- Sim, estamos... inclusive demos carona para uma pessoa que queria te fazer uma surpresa...
Antes que pudesse cair completamente a ficha, Rafael sentiu o sangue se esvair de seu rosto, enquanto registrava a imagem de Marcela, em câmera lenta, descendo do carrão blindado e lentamente caminhando na sua direção...
Frações de segundo com um milhão de coisas correndo no pensamento ao mesmo tempo até Rafael escutar:
- Amooor? Que surpresa! Eu estava indo pra São Paulo, e acabou que você me surpreendeu antes...
Rafael não conseguia pensar em nada, só sentia o sangue congelando nas veias...
- Quem é essa moça, amor?
De um impulso, Rafael dispara:
- Essa é a... uma funcionária lá do escritório, eu estava com tanta saudade de você, amor, que resolvi voltar pra casa mais cedo, daí a Carol, que também estava no congresso, me pediu carona porque estava passando mal e...
A estagiária explode:
- PARA COM ESSA MERDA, RAFAEL! CHEGA DESSA MENTIRA RIDÍCULA! Olha aqui, minha filha, eu sou a namorada dele, meu nome é Carolina. Eu vim com ele e é com ele que eu vou voltar.
Tapa no milkshake do Bobs que voa alto dando aquele banho cremoso em Rafael, respingando em sua ninfetinha. As duas se atracam, Marcela belisca forte, na cara, a amante do seu marido que, por sua vez, revida puxando os cabelos da fina esposa de Rafael, só os soltando quando Marcela dá-lhe um tostão na coxa. Marcela, então, parte com fúria para cima da “aprendiz de piranha”, tentando enfiar-lhe um dedo no olho, mas Carol consegue desviar, dando um soco no nariz de Marcela, fazendo-a ir ao chão. Quando Carol parte para cima de Marcela novamente, leva uma cusparada na cara e, só então, o casal amigo, atônito, se junta a Rafael para ajudá-lo a encerrar a briga entre as duas mulheres.
Cena de novela. O povo, chegado que é em ver a miséria alheia, assiste a tudo curiosamente, comentando a baixaria. Algumas pessoas entre risinhos contidos, outras criticando severamente, mas dali ninguém sai enquanto não cessa o pega-pa-capá.
Desfeito o emaranhado humano, Carol parte pra dentro do carro de Rafael, decretando que de lá não vai sair de jeito nenhum. Com muito esforço, Rafael convence a moça de, pelo menos, ir no banco de trás, para que sua esposa possa ocupar o lugar que ainda lhe pertence. Vão os três absolutamente mudos até o Rio de Janeiro.
O resultado do imbróglio: Marcela pediu o divórcio e Rafael casou com a ninfetinha, que hoje já nem é tão cocota assim. Conta-se que Carol tem dado uma surra por mês nas “oferecidas” que se aproximam de Rafael, que continua, como era absolutamente previsível, um eterno conquistador. Sua mais recente “presa” é a nova estagiária do escritório. Uma morena de olhos verdes. 19 aninhos. Carol nem pode imaginar o que está rolando entre os dois. Dizem que até em casa de suingue eles já foram. E consta que Rafael está doidinho pela gata.
Marcela hoje mora em Paris. Tem um filho, de produção independente, e é empresária pioneira no ramo da moda que escolheu. Tem consciência de que se livrou de um cafajeste incorrigível... E isso lhe basta.
Alessandra Gondim Pinho – 26 de outubro de 2009.
- Rafa, o que foi, querido?
- Nada, não. Acho que tive um pesadelo.
- Quer contar?
- Não, não... foi só que... no meu sonho a Marcela pegava a gente aqui no Hotel e te esculachava.
- Fica calmo, amor, a tua mulher tá no Rio, ela nunca vai saber que você me trouxe pro Congresso aqui em Sampa.
- Eu vou dar um jeito nisso o quanto antes, você sabe, né, princesa?
- Claro, Rafa! Confio em você, sei que vai se separar da Marcela, afinal, a gente se ama. Vamos voltar a dormir, o dia amanhã será longo...
- Tá. Boa noite...
Rafael, todavia, não conseguia mais descansar. Um sentimento estranho tinha lhe invadido a alma e agora estava perturbado demais para desligar-se do pesadelo. Assim que amanheceu, enquanto Carol entrava no banho, ele ligava para Marcela:
- Alô, Cleide! Chama a Marcela, por favor?
- Não está, Seu Rafael.
- Ué... mas pra onde ela foi assim tão cedo?
- Não sei não sinhô.
- Vou ligar pro celular dela, então.
- Pois não, sinhô.
Depois de duas tentativas sem sucesso, volta a ligar pra casa.
- Ô Cleide, não é possível que a Marcela não tenha dito nada a você. Onde é que ela se meteu?
- Ai, meu Sinhô do Bonfim...
- Olha aqui, você vai me dizer agora o que você sabe, estou começando a ficar realmente preocupado!
- Ô seu Rafael, num posso falar nada não, viu? É surpresa!
- Surpresa??? Que surpresa, pelo amor de Deus, Cleide? Fala logo!
- Ó, se é surpresa, é porque num posso contar, né?
- Cleide, quem é que paga o seu salário?
- O sinhô.
- Você quer que eu lhe bote na rua?
- Não quero não sinhô...
- Pois então vá abrindo o bico...
- A Dona Marcela foi pra São Paulo pra fazer uma surpresa pro sinhô, mas...
tum-tum-tum-tum... Rafael desliga o telefone e dá um salto da cama ao mesmo tempo em que Carol desliga o chuveiro. Bate desesperado na porta do banheiro:
- Que foi, amor? Dá pra esperar um pouco?
- Não, não dá! A Marcela está vindo pra São Paulo, então infelizmente vou ter que te embarcar num ônibus de volta pro Rio!
- Êpa! – diz Carol, abrindo a porta do banheiro e mudando o tom - Você me buscou em casa e me trouxe até aqui, e agora quer me despachar num... ônibus?
- Mas minha princesa, não podemos estragar tudo agora...
- Olha só, se vira. Não pedi pra vir, fui convidada por você e não vou admitir ser despachada feito mercadoria estragada. Pelo menos me leva no aeroporto e me põe num avião.
Rafael pensa um pouco e decide que é melhor voltar para o Rio junto com Carol, de carro mesmo. Arrumam tudo rapidinho e, sem café da manhã, metem o pé na estrada.
A certa altura, na Dutra, Carol pede um ovomaltine do Bobs. Era do outro lado da estrada... Rafael faz o retorno e entra no Bobs com a ninfetinha para comprar o tal do shake. Quando estão voltando pro carro, um Audi estaciona ao lado do carro de Rafael, de onde desce um casal de colegas de profissão:
- Rapaz, que coincidência, mas que é que cê tá fazendo aqui!
Iiiiihh... Sabe aquele tipo de sujeito inconveniente? O pior é que a Marcela era amiga da mulher dele...
Pois é, estou voltando do Congresso, já fiz meu networking por lá e, sabe como é, né, a Marcela faz a maior falta... ah! Essa aqui é a... uma futura colega nossa, me pediu uma carona, tá passando meio mal, coitada.
Carol olha atravessado, com cara de poucos amigos, mas aguenta calada. O papo prossegue:
- Mas me conta, e vocês? Estão indo pro Congresso?
- Sim, estamos... inclusive demos carona para uma pessoa que queria te fazer uma surpresa...
Antes que pudesse cair completamente a ficha, Rafael sentiu o sangue se esvair de seu rosto, enquanto registrava a imagem de Marcela, em câmera lenta, descendo do carrão blindado e lentamente caminhando na sua direção...
Frações de segundo com um milhão de coisas correndo no pensamento ao mesmo tempo até Rafael escutar:
- Amooor? Que surpresa! Eu estava indo pra São Paulo, e acabou que você me surpreendeu antes...
Rafael não conseguia pensar em nada, só sentia o sangue congelando nas veias...
- Quem é essa moça, amor?
De um impulso, Rafael dispara:
- Essa é a... uma funcionária lá do escritório, eu estava com tanta saudade de você, amor, que resolvi voltar pra casa mais cedo, daí a Carol, que também estava no congresso, me pediu carona porque estava passando mal e...
A estagiária explode:
- PARA COM ESSA MERDA, RAFAEL! CHEGA DESSA MENTIRA RIDÍCULA! Olha aqui, minha filha, eu sou a namorada dele, meu nome é Carolina. Eu vim com ele e é com ele que eu vou voltar.
Tapa no milkshake do Bobs que voa alto dando aquele banho cremoso em Rafael, respingando em sua ninfetinha. As duas se atracam, Marcela belisca forte, na cara, a amante do seu marido que, por sua vez, revida puxando os cabelos da fina esposa de Rafael, só os soltando quando Marcela dá-lhe um tostão na coxa. Marcela, então, parte com fúria para cima da “aprendiz de piranha”, tentando enfiar-lhe um dedo no olho, mas Carol consegue desviar, dando um soco no nariz de Marcela, fazendo-a ir ao chão. Quando Carol parte para cima de Marcela novamente, leva uma cusparada na cara e, só então, o casal amigo, atônito, se junta a Rafael para ajudá-lo a encerrar a briga entre as duas mulheres.
Cena de novela. O povo, chegado que é em ver a miséria alheia, assiste a tudo curiosamente, comentando a baixaria. Algumas pessoas entre risinhos contidos, outras criticando severamente, mas dali ninguém sai enquanto não cessa o pega-pa-capá.
Desfeito o emaranhado humano, Carol parte pra dentro do carro de Rafael, decretando que de lá não vai sair de jeito nenhum. Com muito esforço, Rafael convence a moça de, pelo menos, ir no banco de trás, para que sua esposa possa ocupar o lugar que ainda lhe pertence. Vão os três absolutamente mudos até o Rio de Janeiro.
O resultado do imbróglio: Marcela pediu o divórcio e Rafael casou com a ninfetinha, que hoje já nem é tão cocota assim. Conta-se que Carol tem dado uma surra por mês nas “oferecidas” que se aproximam de Rafael, que continua, como era absolutamente previsível, um eterno conquistador. Sua mais recente “presa” é a nova estagiária do escritório. Uma morena de olhos verdes. 19 aninhos. Carol nem pode imaginar o que está rolando entre os dois. Dizem que até em casa de suingue eles já foram. E consta que Rafael está doidinho pela gata.
Marcela hoje mora em Paris. Tem um filho, de produção independente, e é empresária pioneira no ramo da moda que escolheu. Tem consciência de que se livrou de um cafajeste incorrigível... E isso lhe basta.
Alessandra Gondim Pinho – 26 de outubro de 2009.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
Uma vida mais "gramurosa"
Por uma vida mais gramurosa
O celular me desperta. Acordei decidida. Agora chega, vou mudar minha vida. Que Enfermagem o quê! Acordar 5 hora da manhã, pegar uma porcaria duma van cheia de gente mal humorada! Que nada! Negócio de cuidar de gente doente, bando de morto-vivo, a maioria nunca nem tá doente de verdade! Olha só fila de hospital público como é que é... Não acaba nunca! Pode ver: pobre adooooora dizer que tá doente e depois reclamar que foi mal atendido no “PS”. Ah, não! Quero isso pra mim, não! O que o Estado paga pro Auxiliar de Enfermagem não dá nem pra pagar minhas conta, pô... Eu quero é ser artista, trabalhar na TV.
Taí, tá decidido! Vou ser atriz da novela das 8. Dar autógrafo, beijar homens lindos... Vou viajar pra tudo quanto é lugar bacana. Fazer novela “nas Índias”, em Paris, em Creta... Parece que eu ouvi que tem um lugar que chama Creta... Todo mundo vai saber quem sou eu. O pessoal da comunidade não vai acreditar, cara! O Creysson, então... ha! Vai se arrepender de ter me deixado...
Agora, imagina só a Lurdismilla , quando ela souber... Vai morrer de inveja, aquela baranga cafona. Pensa que é melhor do que os outro! Ela e aquela cambada da Rua 7. Acham que moram bem, só porque fizeram uns puxadinho lá em cima e lascam churrasco na laje todo fim de semana. Boa bosta. Churrasquinho de frango e linguiça. Nunca tem picanha....
A Lurdismilla sempre quis ter essa buzanfa poderosa que eu tenho. Nem pode usar shortinho, coitada, com aqueles cambito... E ela diz que eu sou gorda, só porque tenho um pouquinho de celulite. Ha! Só dá eu no baile funk, minha filha. EUZINHA aqui ó, sou RAINHA lá. Mas deixa esse negócio de funk pra lá, porque funk é coisa de pobre. Tá ligado que rico dança “batistaca”, né, essas parada aê de “rause”, “dramembesse”... Rico não vai pro baile, não, minha filha... Rico vai pra “ba-la-da”. Acho que com artista é assim também, né! Que eu saiba todo artista é rico!
Só sei que eu não nasci pra ser mais uma neguinha no morro, não... É ruim, hein? Eu quero mais é fazer sucesso, arrasar na fita. Meus minino vão ter o maior orgulho quando eu aparecer na CARAS exibindo o corpão naquela piscina linda, em cima do mar. Vai ter uma foto minha bem grandona, com abre aspas. ABRE ASPAS, minha filha, vai me dizer que tu não sabe o que é abre aspas? No meio da reportagem aparece umas palavra que saíram certinho da minha boca.
Triiiiim... triiiimmmm... iiihh... é minha mãe, me ligano pra mandar eu cuidar dos menino esse fim de semana, quer valer? São meus filho, né! Arrumar um pai pra 4 menino não tá mole, não! Meu mais velho, o Jonata Richardsson só quer saber de namorar, qualquer hora dessa me aparece aí com mais uma boca pra gente ter que dar de comer. Os gêmeos, Dión Uésley e Uélito Jeffrey também não querem conta com os estudo. Eu bem que queria que eles fossem médico quando crescessem... Os dois são branquiiinho... mas é o dia inteiro na pipa. Fazer o que? Pelo menos o pessoal diz que meu caçula, o Ruy Deividsson, vai ser jogador de futebol, daquele tipo bonzão mermo, sabe? Que vai jogar “nas Europa” e as porra. Aí acaba a miséria.
Hmmm... cheiro de queimad... CARACA! Queimei o pão!!! Puta que pariu! Vou perder a van de novo! Aquela bruxa da minha chefe vai me torrar os pentelho... Gente, eu não posso perder esse emprego agora... Ai meu pai, cadê a chave de casa...
É, já vi que vou ter que botar a Lurdismilla pra me substituir no palco no sábado... mas é só dessa vez, não pense ela que vai tomar meu lugar... é ruim, hein! Ah, também, que se dane! Amanhã mesmo vou atrás do meu sonho, começo minha carreira nova, aí tu vai ver. Enquanto isso, sou EU, Rosianny Kelleyn, a única Rainha do Baile Funk da Favela do Buracão! Né pouca merda não, minha filha!
Agora, pro meu nome artístico, tô pensando em tirar o Rosianny... mas precisa de mais uns dois nome aí pra combinar com Kelleyn... alguma coisa BEM gramurosa pra não dar erro... tipo... Kelleyn Christinny Bíndish ... ‘cê acha bom?
É... amanhã eu vejo isso. De amanhã não passa.
O celular me desperta. Acordei decidida. Agora chega, vou mudar minha vida. Que Enfermagem o quê! Acordar 5 hora da manhã, pegar uma porcaria duma van cheia de gente mal humorada! Que nada! Negócio de cuidar de gente doente, bando de morto-vivo, a maioria nunca nem tá doente de verdade! Olha só fila de hospital público como é que é... Não acaba nunca! Pode ver: pobre adooooora dizer que tá doente e depois reclamar que foi mal atendido no “PS”. Ah, não! Quero isso pra mim, não! O que o Estado paga pro Auxiliar de Enfermagem não dá nem pra pagar minhas conta, pô... Eu quero é ser artista, trabalhar na TV.
Taí, tá decidido! Vou ser atriz da novela das 8. Dar autógrafo, beijar homens lindos... Vou viajar pra tudo quanto é lugar bacana. Fazer novela “nas Índias”, em Paris, em Creta... Parece que eu ouvi que tem um lugar que chama Creta... Todo mundo vai saber quem sou eu. O pessoal da comunidade não vai acreditar, cara! O Creysson, então... ha! Vai se arrepender de ter me deixado...
Agora, imagina só a Lurdismilla , quando ela souber... Vai morrer de inveja, aquela baranga cafona. Pensa que é melhor do que os outro! Ela e aquela cambada da Rua 7. Acham que moram bem, só porque fizeram uns puxadinho lá em cima e lascam churrasco na laje todo fim de semana. Boa bosta. Churrasquinho de frango e linguiça. Nunca tem picanha....
A Lurdismilla sempre quis ter essa buzanfa poderosa que eu tenho. Nem pode usar shortinho, coitada, com aqueles cambito... E ela diz que eu sou gorda, só porque tenho um pouquinho de celulite. Ha! Só dá eu no baile funk, minha filha. EUZINHA aqui ó, sou RAINHA lá. Mas deixa esse negócio de funk pra lá, porque funk é coisa de pobre. Tá ligado que rico dança “batistaca”, né, essas parada aê de “rause”, “dramembesse”... Rico não vai pro baile, não, minha filha... Rico vai pra “ba-la-da”. Acho que com artista é assim também, né! Que eu saiba todo artista é rico!
Só sei que eu não nasci pra ser mais uma neguinha no morro, não... É ruim, hein? Eu quero mais é fazer sucesso, arrasar na fita. Meus minino vão ter o maior orgulho quando eu aparecer na CARAS exibindo o corpão naquela piscina linda, em cima do mar. Vai ter uma foto minha bem grandona, com abre aspas. ABRE ASPAS, minha filha, vai me dizer que tu não sabe o que é abre aspas? No meio da reportagem aparece umas palavra que saíram certinho da minha boca.
Triiiiim... triiiimmmm... iiihh... é minha mãe, me ligano pra mandar eu cuidar dos menino esse fim de semana, quer valer? São meus filho, né! Arrumar um pai pra 4 menino não tá mole, não! Meu mais velho, o Jonata Richardsson só quer saber de namorar, qualquer hora dessa me aparece aí com mais uma boca pra gente ter que dar de comer. Os gêmeos, Dión Uésley e Uélito Jeffrey também não querem conta com os estudo. Eu bem que queria que eles fossem médico quando crescessem... Os dois são branquiiinho... mas é o dia inteiro na pipa. Fazer o que? Pelo menos o pessoal diz que meu caçula, o Ruy Deividsson, vai ser jogador de futebol, daquele tipo bonzão mermo, sabe? Que vai jogar “nas Europa” e as porra. Aí acaba a miséria.
Hmmm... cheiro de queimad... CARACA! Queimei o pão!!! Puta que pariu! Vou perder a van de novo! Aquela bruxa da minha chefe vai me torrar os pentelho... Gente, eu não posso perder esse emprego agora... Ai meu pai, cadê a chave de casa...
É, já vi que vou ter que botar a Lurdismilla pra me substituir no palco no sábado... mas é só dessa vez, não pense ela que vai tomar meu lugar... é ruim, hein! Ah, também, que se dane! Amanhã mesmo vou atrás do meu sonho, começo minha carreira nova, aí tu vai ver. Enquanto isso, sou EU, Rosianny Kelleyn, a única Rainha do Baile Funk da Favela do Buracão! Né pouca merda não, minha filha!
Agora, pro meu nome artístico, tô pensando em tirar o Rosianny... mas precisa de mais uns dois nome aí pra combinar com Kelleyn... alguma coisa BEM gramurosa pra não dar erro... tipo... Kelleyn Christinny Bíndish ... ‘cê acha bom?
É... amanhã eu vejo isso. De amanhã não passa.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
A DOMICÍLIO
Dia desses me liga a Glaucia, de São Paulo. Uma amiga recente. Daquelas que a amiga da melhor amiga te apresenta, sabe? Queria me contar sobre o último “pé na bunda”. Também pudera, o modus operandi da moça, no caso, foi um tanto além do aceitável, mesmo para a era pós-pílula.
Dá pra acreditar que existe a modalidade de “dar” a domicílio? Não, pelo amor de Deus, minha amiga não é puta, embora não tenha eu nenhum preconceito com quem ganha o pão exercendo a profissão mais antiga do mundo.
Explico: imagine um sujeito de 40 anos, morando com a mãe, namorando uma gatinha de 20. Pois é. Foi para esse tipo de sujeito que minha amiga meteu na cabeça que queria dar. Veja se tem cabimento. O cara não podia aparecer em público com ela. Em casa, tinha de escondê-la da mãe dele. Então, a cada dois ou três dias, ele esperava a velha dormir e telefonava pra Glaucia, que se lançava na pista, rumo à paulicéia desvairada. Saca a região metropolitana de São Paulo? É numa dessas cidades que ela mora. Não me sinto no direito de contar o que rolava, mas garanto que tem coisa de arrepiar “pelo” de pato.
Bem. Depois de váaaarias entregas a domicílio, a Glaucia botou o sujeito na parede: queria poder sair, dormir junto, e ACORDAR com o cidadão. Já invadia as raias da humilhação ter de sair às cinco da manhã com as calças na mão, como ela vinha fazendo. Esperou uma atitude do infeliz, que não veio, claro.
Então ela disse, num tom entre tristeza e desolação, que estava entrando no desespero por causa do seu prazo de validade, que estava assim... meio que vencendo. Sempre quis ter a própria família, era sonho de vida, blá-blá-blá...
Mandei, na lata: a única coisa que pode conseguir manter um sujeito a fim de você é a autoestima nas alturas. E nunca seja azeda. Homem o-d-e-i-a mulher azeda. “Use os limões do seu humor para fazer uma caipirinha, e bem docinha, de preferência! Mas não se esqueça do gelo, o ingrediente mais importante. Diga que vai ligar e não ligue. Diga que vai sair com ele e suma”! Essa tática é velhíssima, sei, mas dá certo que é uma beleza... E... olha, quem sabe dosar o gelo e o açúcar se dá ainda melhor...
Ela agradeceu milhões, e disse que viria ao Rio me visitar para “um Intensivão”. Feitas as despedidas de costume, desliguei. Fiquei pensando na Glaucia... Uma mulher inteligente, papo bacana, bonita normal...
Dias depois ela me telefona:
- Menina, você não vai acreditar, ainda bem que desencanei daquele filho da puta...
- Ah, é? Por que?
- Porque assim eu pude dar oportunidade a outra pessoa que já tava investindo em mim faz tempo... Tô indo com ele para Paris!
- Uau! Show, hein? Quem é o cara?
- Caraca, amiga, ele é um deus grego, muito legal... e o mais importante: quer algo realmente sério.
- Jura? Que bom! Ele declarou isso pra vc?
- Na verdade não, mas... olha, vou falar logo: tô saindo com meu Chefe, ele está praticamente separado da esposa e...
Esse “PRATICAMENTE separado” eu conheço há uns vinte Natais.
Por um momento, lembrei dos meus compromissos pendentes, tinha uma reunião às duas horas, manicure às quinze, spinning às dezoito... Então percebi que a Glaucia falava sem parar...
- Entendeu, amiga?
- Hã... Ah, sim, claro... Achei melhor não questionar. Há coisas que eu nunca vou compreender mesmo. Mas desliguei com a sensação de que, do jeito que a coisa vai, qualquer dia ainda vão criar um “disque-qualquer-coisa”, e o produto a ser entregue a domicílio poderá ser algo bastante inusitado... um troço mais ou menos assim: “a senhora me vê aí 200 gramas de ...” Bom... deixa pra lá.
Alessandra Gondim Pinho – Agosto de 2009
Dá pra acreditar que existe a modalidade de “dar” a domicílio? Não, pelo amor de Deus, minha amiga não é puta, embora não tenha eu nenhum preconceito com quem ganha o pão exercendo a profissão mais antiga do mundo.
Explico: imagine um sujeito de 40 anos, morando com a mãe, namorando uma gatinha de 20. Pois é. Foi para esse tipo de sujeito que minha amiga meteu na cabeça que queria dar. Veja se tem cabimento. O cara não podia aparecer em público com ela. Em casa, tinha de escondê-la da mãe dele. Então, a cada dois ou três dias, ele esperava a velha dormir e telefonava pra Glaucia, que se lançava na pista, rumo à paulicéia desvairada. Saca a região metropolitana de São Paulo? É numa dessas cidades que ela mora. Não me sinto no direito de contar o que rolava, mas garanto que tem coisa de arrepiar “pelo” de pato.
Bem. Depois de váaaarias entregas a domicílio, a Glaucia botou o sujeito na parede: queria poder sair, dormir junto, e ACORDAR com o cidadão. Já invadia as raias da humilhação ter de sair às cinco da manhã com as calças na mão, como ela vinha fazendo. Esperou uma atitude do infeliz, que não veio, claro.
Então ela disse, num tom entre tristeza e desolação, que estava entrando no desespero por causa do seu prazo de validade, que estava assim... meio que vencendo. Sempre quis ter a própria família, era sonho de vida, blá-blá-blá...
Mandei, na lata: a única coisa que pode conseguir manter um sujeito a fim de você é a autoestima nas alturas. E nunca seja azeda. Homem o-d-e-i-a mulher azeda. “Use os limões do seu humor para fazer uma caipirinha, e bem docinha, de preferência! Mas não se esqueça do gelo, o ingrediente mais importante. Diga que vai ligar e não ligue. Diga que vai sair com ele e suma”! Essa tática é velhíssima, sei, mas dá certo que é uma beleza... E... olha, quem sabe dosar o gelo e o açúcar se dá ainda melhor...
Ela agradeceu milhões, e disse que viria ao Rio me visitar para “um Intensivão”. Feitas as despedidas de costume, desliguei. Fiquei pensando na Glaucia... Uma mulher inteligente, papo bacana, bonita normal...
Dias depois ela me telefona:
- Menina, você não vai acreditar, ainda bem que desencanei daquele filho da puta...
- Ah, é? Por que?
- Porque assim eu pude dar oportunidade a outra pessoa que já tava investindo em mim faz tempo... Tô indo com ele para Paris!
- Uau! Show, hein? Quem é o cara?
- Caraca, amiga, ele é um deus grego, muito legal... e o mais importante: quer algo realmente sério.
- Jura? Que bom! Ele declarou isso pra vc?
- Na verdade não, mas... olha, vou falar logo: tô saindo com meu Chefe, ele está praticamente separado da esposa e...
Esse “PRATICAMENTE separado” eu conheço há uns vinte Natais.
Por um momento, lembrei dos meus compromissos pendentes, tinha uma reunião às duas horas, manicure às quinze, spinning às dezoito... Então percebi que a Glaucia falava sem parar...
- Entendeu, amiga?
- Hã... Ah, sim, claro... Achei melhor não questionar. Há coisas que eu nunca vou compreender mesmo. Mas desliguei com a sensação de que, do jeito que a coisa vai, qualquer dia ainda vão criar um “disque-qualquer-coisa”, e o produto a ser entregue a domicílio poderá ser algo bastante inusitado... um troço mais ou menos assim: “a senhora me vê aí 200 gramas de ...” Bom... deixa pra lá.
Alessandra Gondim Pinho – Agosto de 2009
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
VERGONHA ALHEIA Alessandra – Julho de 2009
Cris e Pedro Ernesto formam um casal típico da atualidade: trabalham feito loucos, conversam amenidades com os amigos nas horas vagas, bebem todas... Quase não conversam um com o outro, e, assim, vão fingindo que se entendem. Ele, executivo de multinacional. Ela, cantora e atriz em princípio de carreira.
Na última quarta-feira, Pedro Ernesto chegou em casa exausto. Abriu a porta e, desatando o nó da gravata, deu um longo suspiro. Adentrou a sala para avistar a mesma cena dos últimos treze meses: Cristina vegetando, à noite, em frente à TV. Tomou uma decisão ali, de rompante.
- Cris! Disse ele, baixinho. Como não houvesse resposta, falou mais alto:
- CRIS!
- Shhh... minha novela.
- Acabou.
- Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, acabou nada, tá começando!
- Cris estou falando do nosso casamento, acabou.
- Fica quietinho, fica! O Raj vai pegar a Maia na cama com o outro hoje!
- Cris, eu não tô de brincadeira.
Silêncio. Pedro Ernesto decide ser mais incisivo:
- Eu já fiquei com a Isabela. Acho que ainda sou a fim dela. Quero me separar de você.
Num misto de choque e incredulidade, Cris desliga a TV.
- Que Isabela? A Isabela... Isabela?
- Sim, a Isabela Isabela.
Silêncio... Depois de uma longa pausa, Cris dispara: - Muito bem, Pedro Ernesto, vou estragar sua noite-surpresa, prepare-se porque eu também tenho uma coisinha pra te contar... e é sobre o Maurício.
- O que? Que Maurício? O Maurício... Maurício?
- Sim, o Maurício Maurício. Ou você acha que ele vem todo domingo aqui pra assistir o jogo do seu vasquinho?
- Mas o Maurício é meu amigo há quase 5 anos, quer dizer... era! Que filho da puta traidor! Bem que eu devia desconfiar...E você, hein, Cris, toda metida a certinha, cheia de criticar as garotas do meu trabalho... meu Deus, isso tudo dentro da minha própria casa!
- Fora...
- O que? Vc ainda tem a petulância de me mandar emb...
- Foi FORA da sua casa.
- Ah, é? E onde foi? Quantas vezes, hein, Cristina?
- Você não disse que quer se separar de mim? Não disse que quer a Isabela? Então o que importa? Se vira!
- Agora quero saber.
- hã-ham! Então tá, então.
- Cristina, pára de palhaçada! Fala direito comigo!
- Ah, essa é boa... você entra em casa, diz que me traiu com uma colega minha e que a deseja ardentemente, e eu é quem estou de palhaçada... Me poupe, Pedro Ernesto! Você é um IMBECIL, isso é o que você é.
- Eu tenho o DIREITO de saber, Cristina. EU pago as contas aqui, não acredito que...
- O que é que cê não acredita, Pedro Ernesto?
- Como você teve a coragem de...
- Não seja cínico, o que você fez foi muito pior.
- É diferente, Cristina...
- Realmente, é BEM diferente. Olha, eu estava mesmo para te comunicar, só não tinha feito isso ainda porque o Maurício insistiu pra gente conversar todo mundo junto, depois do resultado do exame...
- Que exame, meu Deus do céu?
- Não se faça de idiota... que exame pode ser? De gravidez, claro.
- Mas, mas... como você pode...
- Saber? Pois é, o Maurício...
- Eu não quero mais saber do Maurício
- Mas vai ter que saber. ELE é o pai.
- Era só o que me faltava!
- Quem falou primeiro no assunto foi você... agora aguenta.
- É, mas agora, então, só tem um jeito...
- Se vai fazer uma sugestão indecente, perde seu tempo, esse negócio de abortar... o Maurício é contra, mesmo se o filho não fosse dele...
- Cala a boca, Cris! Chega! Não quero mais saber de nada! Olha só, nossa relação já estava dando sinais de desgastes, não é? Pois então, agora acabou de vez.
- Engraçado, achei que pra você estivesse tudo legal. Quem não estava bem era eu, e...
- Ah, não tava bem comigo, é? Então por isso que você...
- O tesão diminuiu bastante, sabe, Pedro Ernesto? Pra falar a verdade, eu tava meio acomodada... acho que já não te amava mais mesmo... Eu tentei te dar um toque várias vezes, mas você não...
- O que importa, Cristina, é que eu...
- Tá vendo, Pedro Ernesto? Você não escuta o que eu falo... Olha, acho que cê não entendeu o que tá acontecendo aqui... Havia uma grande chance desse filho não ser do Maurício, pois quando tudo começou...
- Nesse caso eu não separaria!
- É... você não me deixa completar uma frase, assim fica difícil.
- Calma, Maria Cristina, o que tenho a dizer é do seu interesse! Na verdade esse papo nem teria começado, mesmo porque, você sabe muito bem, desde o começo eu queria ter um filho com você! Sempre foi um sonho meu, e acho que estou preparado para ser pai.
- Peraí... então você acha que EU é quem...
- Pára, pára! Vou dizer o que eu acho: se o filho que vc estiver esperando for meu, eu fico com você, Cris. Perdoo tudo, pronto.
- É muita cara de pau.
- Eu acho a sua... mas eu te perdoo, o ser humano é falho, pronto! Vamos começar uma vida nova. Cris, eu estava confuso, tive um dia cheio hoje e... me precipitei. Foi isso, chega. Não quero Isabela nenhuma, não importa o que tenha acontecido com você e o... deixa pra lá. Por favor, não é possível que você não tenha também a capacidade de perdoar.
- Eu só não vou ficar INDIGNADA com essa ofensa porque alguém vil como você não merece qualquer espécie de sentimento... Como eu pude conviver esse tempo todo com uma pessoa que eu não conhecia... meu Deus...
- Ah, não vem não! Quer dar uma de santinha agora? E ó, tem mais, agora que falei tudo, quero saber, quantas vezes cê saiu com o traíra do Maurício? Onde vocês se encontravam? Que horas?
- Pedro Ernesto, deixa de ser cafajeste.
Silêncio. Cristina, com aparente calma, avisa:
- Olha só, vou preparar um drink pra mim porque eu tô REALMENTE precisando... Enquanto isso, vê se você CONSEGUE visualizar o que está acontecendo...
Depois de alguns minutos, Cris volta à sala e se depara com a cena corriqueira:
- Vai, vai! Puta que pariu! Perdeu um gol feito...
- Pedro Ernesto...
- Esse atacante de merda...
- PEDRO ERNESTO!
- Hã... dá a cerveja aqui... ué? Você não trouxe pra mim?
- Estou indo embora...
- Como assim? Da minha casa você não sai com meu filho na barriga! Chega de brincadeira, vai Cris. Agora eu sei, já entendi tudo! O filho que você carrega aí dentro é meu, era isso! Você só falou tudo aquilo porque...
- Eu NÃO estou grávida COISA NENHUMA, Pedro Ernesto! Em que mundo vc vive, cara! Se toca!
- Mas então... por que tudo isso? O que é que você estava querendo me dizer?
- Como eu dizia, estou indo embora. Minha mãe vai passar aqui para pegar minhas coisas semana que vem.
- Vá entender as mulheres... então eu posso ficar com a Isabela? É isso? Você está me atirando nos braços dela, hein!
Rindo cinicamente, Cristina dispara:
- Seja feliz com a Isabela, vocês viverão um belo triângulo... isto é, se eles quiserem que vc seja um dos vértices, coisa que eu duvido.
- Triângulo? Como assim? Eles quem?
- Meu caro ex. A Isabela fica com o Maurício faz tempo. Pelo visto só vc não sabe disso. E também, pelo visto, vocês 3 se merecem.
- Então quer dizer...
- Sim. Você confundiu tudo... eu e o Maurício nunca... nada. Fiquei sabendo dele e da Isabela porque peguei os dois se atracando na garagem. Foi o próprio Maurício quem me pediu que guardasse segredo...
- Que coisa...
- E a Isabela acabou me confessando que está grávida. Eu só não sabia que a dúvida que ela disse existir quanto à paternidade pudesse envolver VOCÊ.
- Mas ela nem me contou nada, eu achei que a gente tivesse se precavido o suficiente e... já faz tanto tempo que eu achei que... epa! Então, a Isabela...
- SIIIIMMMM!! A-I-S-A-B-E-L-A-E-S-T-Á-G-R-Á-V-I-D-A-D-O-M-A-U-R-Í-C-I-O !!!
- Mas como...
- O resultado saiu hoje. Pelo tempo de gravidez, e pelo que um e outro dizem, e agora juntando com o que VOCÊ diz, esse filho só pode ser do Maurício mesmo.
- Mas então...
- Apoiei o casal. Foi só. Era disso que eu estava falando o tempo todo, desde o início deste diálogo INSANO.
- Então o Maurício só vinha aqui...
- O Maurício passou a vir todo domingo porque era o dia do meu ensaio com a Isabela aqui em casa.
- ah...
- Eles me pediram pra guardar segredo até eles tomarem a decisão.
- Que decisão?
- De se assumirem. Só estavam esperando o resultado do exame.
Silêncio. Com um longo suspiro, Cris pensa em voz alta...
- Gente... como é que pode... A ficha não cai, cara... Porra, a terceira pessoa nessa situação era VOCÊ ... E decreta:
- Estou com vergonha por você, Pedro Ernesto. Já ouviu falar de vergonha alheia? Bom, deixa pra lá...
- Você tem toda razão... como eu pude pensar... Agora eu sei que nunca senti nada pela Isabela, Cris, juro... Tive um dia ruim... Poxa, foi uma vezinha só, vai, me perdoa!
- Olha só... eles estão chegando aqui daqui a pouquinho pra te comunicar as “novidades”.
- Cris, por favor, não me deixa. Fica comigo...
- E vão te convidar pra padrinho. Pede pra descolarem outra madrinha, falou?Adeus, Pedro Ernesto.
CRIIIIISSSS!!!!
Cris e Pedro Ernesto formam um casal típico da atualidade: trabalham feito loucos, conversam amenidades com os amigos nas horas vagas, bebem todas... Quase não conversam um com o outro, e, assim, vão fingindo que se entendem. Ele, executivo de multinacional. Ela, cantora e atriz em princípio de carreira.
Na última quarta-feira, Pedro Ernesto chegou em casa exausto. Abriu a porta e, desatando o nó da gravata, deu um longo suspiro. Adentrou a sala para avistar a mesma cena dos últimos treze meses: Cristina vegetando, à noite, em frente à TV. Tomou uma decisão ali, de rompante.
- Cris! Disse ele, baixinho. Como não houvesse resposta, falou mais alto:
- CRIS!
- Shhh... minha novela.
- Acabou.
- Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh, acabou nada, tá começando!
- Cris estou falando do nosso casamento, acabou.
- Fica quietinho, fica! O Raj vai pegar a Maia na cama com o outro hoje!
- Cris, eu não tô de brincadeira.
Silêncio. Pedro Ernesto decide ser mais incisivo:
- Eu já fiquei com a Isabela. Acho que ainda sou a fim dela. Quero me separar de você.
Num misto de choque e incredulidade, Cris desliga a TV.
- Que Isabela? A Isabela... Isabela?
- Sim, a Isabela Isabela.
Silêncio... Depois de uma longa pausa, Cris dispara: - Muito bem, Pedro Ernesto, vou estragar sua noite-surpresa, prepare-se porque eu também tenho uma coisinha pra te contar... e é sobre o Maurício.
- O que? Que Maurício? O Maurício... Maurício?
- Sim, o Maurício Maurício. Ou você acha que ele vem todo domingo aqui pra assistir o jogo do seu vasquinho?
- Mas o Maurício é meu amigo há quase 5 anos, quer dizer... era! Que filho da puta traidor! Bem que eu devia desconfiar...E você, hein, Cris, toda metida a certinha, cheia de criticar as garotas do meu trabalho... meu Deus, isso tudo dentro da minha própria casa!
- Fora...
- O que? Vc ainda tem a petulância de me mandar emb...
- Foi FORA da sua casa.
- Ah, é? E onde foi? Quantas vezes, hein, Cristina?
- Você não disse que quer se separar de mim? Não disse que quer a Isabela? Então o que importa? Se vira!
- Agora quero saber.
- hã-ham! Então tá, então.
- Cristina, pára de palhaçada! Fala direito comigo!
- Ah, essa é boa... você entra em casa, diz que me traiu com uma colega minha e que a deseja ardentemente, e eu é quem estou de palhaçada... Me poupe, Pedro Ernesto! Você é um IMBECIL, isso é o que você é.
- Eu tenho o DIREITO de saber, Cristina. EU pago as contas aqui, não acredito que...
- O que é que cê não acredita, Pedro Ernesto?
- Como você teve a coragem de...
- Não seja cínico, o que você fez foi muito pior.
- É diferente, Cristina...
- Realmente, é BEM diferente. Olha, eu estava mesmo para te comunicar, só não tinha feito isso ainda porque o Maurício insistiu pra gente conversar todo mundo junto, depois do resultado do exame...
- Que exame, meu Deus do céu?
- Não se faça de idiota... que exame pode ser? De gravidez, claro.
- Mas, mas... como você pode...
- Saber? Pois é, o Maurício...
- Eu não quero mais saber do Maurício
- Mas vai ter que saber. ELE é o pai.
- Era só o que me faltava!
- Quem falou primeiro no assunto foi você... agora aguenta.
- É, mas agora, então, só tem um jeito...
- Se vai fazer uma sugestão indecente, perde seu tempo, esse negócio de abortar... o Maurício é contra, mesmo se o filho não fosse dele...
- Cala a boca, Cris! Chega! Não quero mais saber de nada! Olha só, nossa relação já estava dando sinais de desgastes, não é? Pois então, agora acabou de vez.
- Engraçado, achei que pra você estivesse tudo legal. Quem não estava bem era eu, e...
- Ah, não tava bem comigo, é? Então por isso que você...
- O tesão diminuiu bastante, sabe, Pedro Ernesto? Pra falar a verdade, eu tava meio acomodada... acho que já não te amava mais mesmo... Eu tentei te dar um toque várias vezes, mas você não...
- O que importa, Cristina, é que eu...
- Tá vendo, Pedro Ernesto? Você não escuta o que eu falo... Olha, acho que cê não entendeu o que tá acontecendo aqui... Havia uma grande chance desse filho não ser do Maurício, pois quando tudo começou...
- Nesse caso eu não separaria!
- É... você não me deixa completar uma frase, assim fica difícil.
- Calma, Maria Cristina, o que tenho a dizer é do seu interesse! Na verdade esse papo nem teria começado, mesmo porque, você sabe muito bem, desde o começo eu queria ter um filho com você! Sempre foi um sonho meu, e acho que estou preparado para ser pai.
- Peraí... então você acha que EU é quem...
- Pára, pára! Vou dizer o que eu acho: se o filho que vc estiver esperando for meu, eu fico com você, Cris. Perdoo tudo, pronto.
- É muita cara de pau.
- Eu acho a sua... mas eu te perdoo, o ser humano é falho, pronto! Vamos começar uma vida nova. Cris, eu estava confuso, tive um dia cheio hoje e... me precipitei. Foi isso, chega. Não quero Isabela nenhuma, não importa o que tenha acontecido com você e o... deixa pra lá. Por favor, não é possível que você não tenha também a capacidade de perdoar.
- Eu só não vou ficar INDIGNADA com essa ofensa porque alguém vil como você não merece qualquer espécie de sentimento... Como eu pude conviver esse tempo todo com uma pessoa que eu não conhecia... meu Deus...
- Ah, não vem não! Quer dar uma de santinha agora? E ó, tem mais, agora que falei tudo, quero saber, quantas vezes cê saiu com o traíra do Maurício? Onde vocês se encontravam? Que horas?
- Pedro Ernesto, deixa de ser cafajeste.
Silêncio. Cristina, com aparente calma, avisa:
- Olha só, vou preparar um drink pra mim porque eu tô REALMENTE precisando... Enquanto isso, vê se você CONSEGUE visualizar o que está acontecendo...
Depois de alguns minutos, Cris volta à sala e se depara com a cena corriqueira:
- Vai, vai! Puta que pariu! Perdeu um gol feito...
- Pedro Ernesto...
- Esse atacante de merda...
- PEDRO ERNESTO!
- Hã... dá a cerveja aqui... ué? Você não trouxe pra mim?
- Estou indo embora...
- Como assim? Da minha casa você não sai com meu filho na barriga! Chega de brincadeira, vai Cris. Agora eu sei, já entendi tudo! O filho que você carrega aí dentro é meu, era isso! Você só falou tudo aquilo porque...
- Eu NÃO estou grávida COISA NENHUMA, Pedro Ernesto! Em que mundo vc vive, cara! Se toca!
- Mas então... por que tudo isso? O que é que você estava querendo me dizer?
- Como eu dizia, estou indo embora. Minha mãe vai passar aqui para pegar minhas coisas semana que vem.
- Vá entender as mulheres... então eu posso ficar com a Isabela? É isso? Você está me atirando nos braços dela, hein!
Rindo cinicamente, Cristina dispara:
- Seja feliz com a Isabela, vocês viverão um belo triângulo... isto é, se eles quiserem que vc seja um dos vértices, coisa que eu duvido.
- Triângulo? Como assim? Eles quem?
- Meu caro ex. A Isabela fica com o Maurício faz tempo. Pelo visto só vc não sabe disso. E também, pelo visto, vocês 3 se merecem.
- Então quer dizer...
- Sim. Você confundiu tudo... eu e o Maurício nunca... nada. Fiquei sabendo dele e da Isabela porque peguei os dois se atracando na garagem. Foi o próprio Maurício quem me pediu que guardasse segredo...
- Que coisa...
- E a Isabela acabou me confessando que está grávida. Eu só não sabia que a dúvida que ela disse existir quanto à paternidade pudesse envolver VOCÊ.
- Mas ela nem me contou nada, eu achei que a gente tivesse se precavido o suficiente e... já faz tanto tempo que eu achei que... epa! Então, a Isabela...
- SIIIIMMMM!! A-I-S-A-B-E-L-A-E-S-T-Á-G-R-Á-V-I-D-A-D-O-M-A-U-R-Í-C-I-O !!!
- Mas como...
- O resultado saiu hoje. Pelo tempo de gravidez, e pelo que um e outro dizem, e agora juntando com o que VOCÊ diz, esse filho só pode ser do Maurício mesmo.
- Mas então...
- Apoiei o casal. Foi só. Era disso que eu estava falando o tempo todo, desde o início deste diálogo INSANO.
- Então o Maurício só vinha aqui...
- O Maurício passou a vir todo domingo porque era o dia do meu ensaio com a Isabela aqui em casa.
- ah...
- Eles me pediram pra guardar segredo até eles tomarem a decisão.
- Que decisão?
- De se assumirem. Só estavam esperando o resultado do exame.
Silêncio. Com um longo suspiro, Cris pensa em voz alta...
- Gente... como é que pode... A ficha não cai, cara... Porra, a terceira pessoa nessa situação era VOCÊ ... E decreta:
- Estou com vergonha por você, Pedro Ernesto. Já ouviu falar de vergonha alheia? Bom, deixa pra lá...
- Você tem toda razão... como eu pude pensar... Agora eu sei que nunca senti nada pela Isabela, Cris, juro... Tive um dia ruim... Poxa, foi uma vezinha só, vai, me perdoa!
- Olha só... eles estão chegando aqui daqui a pouquinho pra te comunicar as “novidades”.
- Cris, por favor, não me deixa. Fica comigo...
- E vão te convidar pra padrinho. Pede pra descolarem outra madrinha, falou?Adeus, Pedro Ernesto.
CRIIIIISSSS!!!!
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
XIXI em praça pública???
Tive a ideia de escrever sobre xixi por conta de um comportamento deplorável que o carioca tem de fazer xixi na rua. Isso mesmo, à luz do dia, quando julga necessário: põe o dito cujo pra fora e urina como um cachorrinho descompromissado com o ambiente social em que vive.
Já há uma campanha em curso no Rio de Janeiro, jornais apóiam a iniciativa da Prefeitura de punir os mijões, mas como carioca é abusado, as chances de sucesso dessa campanha são remotíssimas, a não ser que se bula pra valer no bolso. Para os desavisados, bulir no bolso significa, no caso, aplicar pesadas multas em cima de todos aqueles que tiram a água dos joelhos em praça pública, mijões que pouco caso fazem da presença de crianças ou velhinhas pudicas como eu. Eh, não sou assim tão velhinha, né? Menos ainda pudica. Mas independente de qualquer coisa, penso ser de bom tom não urinar na presença alheia, ainda mais em pleno espaço público.
Querem saber? Já que o assunto é XIXI, preciso confessar uma coisa. Talvez este meu mau humor hoje contra os cariocas se dê por conta de um trauma que nunca pude superar, e que foi rememorado hoje. Não quero constranger ninguém, mas vou aproveitar a oportunidade pra dividir com o seleto grupo de leitores mais essa.
Eu queria ter nascido homem (e isso NADA tem a ver com minha opção heterossexual totalmente convicta). Eu só andava com meninos, brincava de futebol, pipa, bola de gude, enquanto as menininhas alisavam os cabelos de suas bonecas. Mais que isso, eu ajudava meu irmão a arrebentar toda boneca que eu ganhava de presente, como que numa revolta contra as Barbies, já naquela época. Lembro que uma vez eu ganhei uma bonequinha-bebê que fazia xixi. Mijava o dia todo, a infeliz. E eu a trocar a porra da fralda da excomungada, até o dia em que afoguei a danada na privada, acho que era pra ela ter uma ideia do que era se embeber no xixi, sei lá. Criança é cruel.
A vontade de ser menino parecia tão dominante que, ainda pequeninha, eu insistia com a minha mãe pra comprar um pinto pra mim, pois eu queria fazer xixi em pé. Sempre MORRI de inveja disso. E de muitas outras coisas do universo masculino.
Bom, cresci. E estou feliz hoje com minha condição "Xis-Xis". Não, não é xixi no plural, não. É “XX”, a condição genética feminina, o fenótipo, ou seja lá como isso se denomine cientificamente. Estou certa de que eu não seria um bom espécime "XY". Só não entendo porque ainda não me surgiu o tal do instinto materno, já que completei quarenta primaveras este ano e continuo sem o desejo alucinado que toda mulher tem de alguém lhe chamar de “mãe”.
Mas eu dizia sobre a minha inveja de possuir um pinto. Depois de diversas tentativas frustradas, até arrumei um bom exemplar, digo que me pertence, mas no fundo, no fundo, sei que é do meu marido mesmo.
Outra campanha interessante sobre xixi é a da economia de água. Não conhece? Procure no google: xixinobanho.org.br Tudo o que sua mãe dizia sobre fazer xixi dentro do boxe está agora fora de moda, totalmente careta. A recomendação ecologicamente correta hoje é mijar no boxe, quero dizer, no chão, ao entrar no banho. Advinha? Minha chance de mijar em pé, né? Adorei essa campanha... Viva à economia de água da descarga da privada!
Voltando à campanha contra o xixi em praça pública: mais do que multa, a punição para quem faz da rua urinol deveria ser a perda do bigulin.
Alessandra Pinho – Agosto de 2009
Já há uma campanha em curso no Rio de Janeiro, jornais apóiam a iniciativa da Prefeitura de punir os mijões, mas como carioca é abusado, as chances de sucesso dessa campanha são remotíssimas, a não ser que se bula pra valer no bolso. Para os desavisados, bulir no bolso significa, no caso, aplicar pesadas multas em cima de todos aqueles que tiram a água dos joelhos em praça pública, mijões que pouco caso fazem da presença de crianças ou velhinhas pudicas como eu. Eh, não sou assim tão velhinha, né? Menos ainda pudica. Mas independente de qualquer coisa, penso ser de bom tom não urinar na presença alheia, ainda mais em pleno espaço público.
Querem saber? Já que o assunto é XIXI, preciso confessar uma coisa. Talvez este meu mau humor hoje contra os cariocas se dê por conta de um trauma que nunca pude superar, e que foi rememorado hoje. Não quero constranger ninguém, mas vou aproveitar a oportunidade pra dividir com o seleto grupo de leitores mais essa.
Eu queria ter nascido homem (e isso NADA tem a ver com minha opção heterossexual totalmente convicta). Eu só andava com meninos, brincava de futebol, pipa, bola de gude, enquanto as menininhas alisavam os cabelos de suas bonecas. Mais que isso, eu ajudava meu irmão a arrebentar toda boneca que eu ganhava de presente, como que numa revolta contra as Barbies, já naquela época. Lembro que uma vez eu ganhei uma bonequinha-bebê que fazia xixi. Mijava o dia todo, a infeliz. E eu a trocar a porra da fralda da excomungada, até o dia em que afoguei a danada na privada, acho que era pra ela ter uma ideia do que era se embeber no xixi, sei lá. Criança é cruel.
A vontade de ser menino parecia tão dominante que, ainda pequeninha, eu insistia com a minha mãe pra comprar um pinto pra mim, pois eu queria fazer xixi em pé. Sempre MORRI de inveja disso. E de muitas outras coisas do universo masculino.
Bom, cresci. E estou feliz hoje com minha condição "Xis-Xis". Não, não é xixi no plural, não. É “XX”, a condição genética feminina, o fenótipo, ou seja lá como isso se denomine cientificamente. Estou certa de que eu não seria um bom espécime "XY". Só não entendo porque ainda não me surgiu o tal do instinto materno, já que completei quarenta primaveras este ano e continuo sem o desejo alucinado que toda mulher tem de alguém lhe chamar de “mãe”.
Mas eu dizia sobre a minha inveja de possuir um pinto. Depois de diversas tentativas frustradas, até arrumei um bom exemplar, digo que me pertence, mas no fundo, no fundo, sei que é do meu marido mesmo.
Outra campanha interessante sobre xixi é a da economia de água. Não conhece? Procure no google: xixinobanho.org.br Tudo o que sua mãe dizia sobre fazer xixi dentro do boxe está agora fora de moda, totalmente careta. A recomendação ecologicamente correta hoje é mijar no boxe, quero dizer, no chão, ao entrar no banho. Advinha? Minha chance de mijar em pé, né? Adorei essa campanha... Viva à economia de água da descarga da privada!
Voltando à campanha contra o xixi em praça pública: mais do que multa, a punição para quem faz da rua urinol deveria ser a perda do bigulin.
Alessandra Pinho – Agosto de 2009
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
TÁ AMARRADO!!!
Tá amarrado!
Tinha uma tia que era crente. Sim, daquelas convictas e radicais. Viúva e de luto desde que me entendo por gente, ai de quem falasse de sexo perto dela, ou de futebol, bebida, política, televisão, macumba... tudo era coisa do diabo. E tome-lhe discurso de salvação! Pra todo mundo era a mesma ladainha. Se alguém interrompesse, ela começava do zero, dizia tudinho de novo, afinal, aquilo tudo era decorado mesmo, sabia lá o que significava? Sempre que alguém arriscava um palpite pro FLA x FLU de domingo, ela esbravejava, com aquele sotaque nordestino bem carregado: “tá amarrado em nome de Jesus!”
O dinheirinho que minha tia juntava era destinado à igreja. Era o tal do dízimo. O pastor dizia que era o pedágio pra ir pro céu. Para quem criticava, argumentando que prejudicava o sustento da família, ela desferia na lata: “Tá repreendido em nome de Jesus! O sinhô pode deixar quieto que Deus provê! Po’ dexar!” E assim ia alimentando e sustentando a causa do Senhor. E a sua própria causa.
Certa vez, num fevereiro tipicamente carioca, vestida de preto, saia até o meio das canelas, blusa de mangas compridas, bíblia embaixo do braço, uma quentura do cão, minha tia esperava a condução para voltar para casa depois de uma campanha de orações em sua igreja contra a festa pagã. Um carnavalesco desgarrado de seu bloco, a essa altura sem qualquer noção dos bons costumes, pensou encontrar ali um bom motivo para encerrar a farra do dia. Decidiu achincalhar com a velha.
Com a voz embolada, começou, apontando para minha tia:
- Ééé... fffaaan...tasia de ca...aar...naval, é? ! – E dava uma risadinha cínica, vez em quando repetindo a frase debochada.
Como fizesse não era com ela, o maluco resolveu partir pra pirraça mais direta. Apontou para a mulher e, cambaleando, disparou:
- Êiiiiita, vai sair no broco! Vai no “Rola Preguiçosa”!
Ao que a velha, sem conseguir se conter, rebate:
- O sinhô largue de osadia, que eu num lhe conheço!
- Vooo...cê sabe como é que eu vou aí, véia? Eu vou “Cutucano atráááás”
Silêncio...
E o bebum seguia usando tudo que era nome de bloco carnavalesco carioca que lhe vinha à cabeça:
- Aí tia, “Chupa, mas não baba”!
- É bom o sinhô procurar o seu lugar!
- Iiihh! “Que merda é essa” véia? “Se não quer me dar me empresta”!
- O sinhô se respeite, seu descarado! Vou lhe meter a mão na cara e vou chamar a polícia!
- “Quem num guenta bebe água”! Vamo se embriagar no“Suvaco do Cristo”...
Era demais, o nome do Senhor em vão...
- Já sei, vestida assim, a senhora é a mulher do cramulhão!
Aí extrapolou. A velha deu dois pulos e três gritos, saltando em cima do miserável com uma cruz de metal e acertando-lhe a testa, determinou aos berros:
- “TÁ AMARRAAAAADO EM NOME DE JESUUUS”!! “SAAAAI! SAAAIIII DESSE CORPO QUE NÃO TE PERTENCE!” “QUEIIIIIIIMAAA!”
Pronto! Estabelecido o quiproquó. Pití no ponto de ônibus, a turma do deixa-disso tentava separar, mas a velha estava grudada, agarrada no pescoço do bêbado como que possuída. O homem, coitado, esticado pra lá e pra cá, cambaleante, acabou se estabacando no chão com a velha em cima, toda descabelada e com as pernas abertas. Ninguém sequer prestou atenção na calçola da velha... De modo trágico, com a queda, o homem arrebentara a nuca no meio-fio. Silêncio no ponto de ônibus, e o sangue se espraiando pela calçada... E agora? Não tem um médico no ponto, ninguém quer fazer boca-a-boca no bebum... “Chamem os Bombeiros!” – alguém grita.
Depois de 10 minutos chega a Defesa Civil e constata a morte do infeliz. Nada mais há de se fazer. “O pior é que não teve tempo de aceitar Jesus para ser salvo”! – dizia minha tia, ao entrar no carro da polícia pra ir “prestar esclarecimentos” na Delegacia. Já cansada depois da cerimônia Expulsa-Exú em praça pública, nem percebeu uma discussão paralela sobre futebol que acontecia ali mesmo, naquele fatídico dia, no malsinado ponto de ônibus:
- “Cala a boca, rapaz, o Vasco vai ser campeão esse ano ainda!”
Né por nada não, mas por via das dúvidas... TÁ AMARRADO!
Alessandra Gondim - 10 de julho de 2009
Tinha uma tia que era crente. Sim, daquelas convictas e radicais. Viúva e de luto desde que me entendo por gente, ai de quem falasse de sexo perto dela, ou de futebol, bebida, política, televisão, macumba... tudo era coisa do diabo. E tome-lhe discurso de salvação! Pra todo mundo era a mesma ladainha. Se alguém interrompesse, ela começava do zero, dizia tudinho de novo, afinal, aquilo tudo era decorado mesmo, sabia lá o que significava? Sempre que alguém arriscava um palpite pro FLA x FLU de domingo, ela esbravejava, com aquele sotaque nordestino bem carregado: “tá amarrado em nome de Jesus!”
O dinheirinho que minha tia juntava era destinado à igreja. Era o tal do dízimo. O pastor dizia que era o pedágio pra ir pro céu. Para quem criticava, argumentando que prejudicava o sustento da família, ela desferia na lata: “Tá repreendido em nome de Jesus! O sinhô pode deixar quieto que Deus provê! Po’ dexar!” E assim ia alimentando e sustentando a causa do Senhor. E a sua própria causa.
Certa vez, num fevereiro tipicamente carioca, vestida de preto, saia até o meio das canelas, blusa de mangas compridas, bíblia embaixo do braço, uma quentura do cão, minha tia esperava a condução para voltar para casa depois de uma campanha de orações em sua igreja contra a festa pagã. Um carnavalesco desgarrado de seu bloco, a essa altura sem qualquer noção dos bons costumes, pensou encontrar ali um bom motivo para encerrar a farra do dia. Decidiu achincalhar com a velha.
Com a voz embolada, começou, apontando para minha tia:
- Ééé... fffaaan...tasia de ca...aar...naval, é? ! – E dava uma risadinha cínica, vez em quando repetindo a frase debochada.
Como fizesse não era com ela, o maluco resolveu partir pra pirraça mais direta. Apontou para a mulher e, cambaleando, disparou:
- Êiiiiita, vai sair no broco! Vai no “Rola Preguiçosa”!
Ao que a velha, sem conseguir se conter, rebate:
- O sinhô largue de osadia, que eu num lhe conheço!
- Vooo...cê sabe como é que eu vou aí, véia? Eu vou “Cutucano atráááás”
Silêncio...
E o bebum seguia usando tudo que era nome de bloco carnavalesco carioca que lhe vinha à cabeça:
- Aí tia, “Chupa, mas não baba”!
- É bom o sinhô procurar o seu lugar!
- Iiihh! “Que merda é essa” véia? “Se não quer me dar me empresta”!
- O sinhô se respeite, seu descarado! Vou lhe meter a mão na cara e vou chamar a polícia!
- “Quem num guenta bebe água”! Vamo se embriagar no“Suvaco do Cristo”...
Era demais, o nome do Senhor em vão...
- Já sei, vestida assim, a senhora é a mulher do cramulhão!
Aí extrapolou. A velha deu dois pulos e três gritos, saltando em cima do miserável com uma cruz de metal e acertando-lhe a testa, determinou aos berros:
- “TÁ AMARRAAAAADO EM NOME DE JESUUUS”!! “SAAAAI! SAAAIIII DESSE CORPO QUE NÃO TE PERTENCE!” “QUEIIIIIIIMAAA!”
Pronto! Estabelecido o quiproquó. Pití no ponto de ônibus, a turma do deixa-disso tentava separar, mas a velha estava grudada, agarrada no pescoço do bêbado como que possuída. O homem, coitado, esticado pra lá e pra cá, cambaleante, acabou se estabacando no chão com a velha em cima, toda descabelada e com as pernas abertas. Ninguém sequer prestou atenção na calçola da velha... De modo trágico, com a queda, o homem arrebentara a nuca no meio-fio. Silêncio no ponto de ônibus, e o sangue se espraiando pela calçada... E agora? Não tem um médico no ponto, ninguém quer fazer boca-a-boca no bebum... “Chamem os Bombeiros!” – alguém grita.
Depois de 10 minutos chega a Defesa Civil e constata a morte do infeliz. Nada mais há de se fazer. “O pior é que não teve tempo de aceitar Jesus para ser salvo”! – dizia minha tia, ao entrar no carro da polícia pra ir “prestar esclarecimentos” na Delegacia. Já cansada depois da cerimônia Expulsa-Exú em praça pública, nem percebeu uma discussão paralela sobre futebol que acontecia ali mesmo, naquele fatídico dia, no malsinado ponto de ônibus:
- “Cala a boca, rapaz, o Vasco vai ser campeão esse ano ainda!”
Né por nada não, mas por via das dúvidas... TÁ AMARRADO!
Alessandra Gondim - 10 de julho de 2009
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